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A Marca do Excesso na Atualidade

25/10/2016

Criado Por

Os sintomas contemporâneos possuem uma marca em comum: a marca do excesso. O que se apresenta na atualidade é um tipo de sofrimento que está relacionado não mais à repressão, à falta, mas sim ao excesso, à “falta de falta”.

 

 

 

 

 

O que temos visto, hoje em dia, é um tipo de sofrimento causado não mais pela repressão, pela falta, mas sim pelo excesso, pela “falta de falta”, como já enunciava o psicanalista francês Jacques Lacan. Vivemos numa sociedade onde a perda e a falta são inaceitáveis, insuportáveis e, por esta razão, busca-se a completude o tempo todo. Em nossa cultura, talvez sob influência da cultura estadunidense, valoriza-se somente o "winner" (vencedor): o "loser" (perdedor) não tem vez, não tem voz. “Fique linda, feliz e... magra!”, ordena (sim, é uma ordem) um cartaz de propaganda pendurado em uma banca de jornal. A mensagem parece bem clara: seja perfeita! Não se contente com menos! Busque sempre mais! Vá além! Você pode! Tenha prazer máximo! Felicidade máxima! Beleza máxima! Corpo máximo! Emprego máximo! Marido e mulher máximos! Sexo máximo! Dinheiro máximo! Filhos máximos! Ou seja, Goze! Sim, o conceito psicanalítico de gozo está intimamente ligado a este excesso, um excesso que, em última instância, é causa de dor e sofrimento. Fazendo coro à importância do tema em questão, tanto na teoria como na clínica, a psicanalista Ana Maria Rudge, em seu artigo “Pulsão de morte como efeito de supereu” (2006), diz que a questão da constituição desta força que empurra o homem para a dor e para o mal constitui tema central na obra freudiana.

 

E se nem tudo em nossas vidas for assim, tão máximo? Bem... aí vem a depressão, a compulsão, o pânico, a angústia.  Busca-se desesperadamente uma "poção mágica" que impeça o reconhecimento da falta, da incompletude, do sofrimento. Sofrimento este, diga-se de passagem, que é inerente à vida e ao viver. Adquirimos novos objetos, na esperança de que estes finalmente dêem conta da falta, do buraco, do vazio angustiante, e que possam proporcionar uma satisfação plena, completa, definitiva e ilusória. Objetos que ofereçam ou prometam (quase todos prometem) a tão desejada sensação de completude, ou “alívio imediato”, são cada vez mais desejados e consumidos. Onde há demanda, claro, há oferta. Precisamos reconhecer a incrível habilidade e competência da nossa cultura em desenvolver e ofertar tais objetos, tão atraentes, que vão de antidepressivos à IPads.

 

Poderíamos discorrer aqui a respeito de vários destes objetos, mas para efeito de exemplificação, optamos, talvez, pelo mais representativo deles, a saber, as drogas, tanto as legais, quanto as ilegais. O uso abusivo (excessivo) destas verdadeiras “poções mágicas”, conhecidas pelos nomes de antidepressivo, maconha, estabilizador de humor, cocaína, pilula azul, álcool, ansiolítico, ecstasy, dentre outras, espalha-se assustadoramente, das classes mais abastadas aos moradores de rua. No início do ano passado, um relatório divulgado pelo INCB (International Narcotics Control Board), organização ligada à ONU, trouxe uma informação surpreendente: o uso abusivo dos chamados remédios controlados, que só podem ser vendidos com receita médica, cresceu tão rapidamente no mundo que o número de viciados em medicamentos superou o número de usuários de cocaína, heroína e ecstasy juntos.

 

Em “O Mal Estar na Civilização” (1930), quando nos fala sobre a intoxicação, Freud destaca suas virtudes e sua eficácia na busca pela felicidade e no afastamento da desgraça. Não à toa, refere-se aos veículos intoxicantes (drogas), como verdadeiros “amortecedores de preocupações”. Escutemos Freud:

 

O mais grosseiro, embora também o mais eficaz, desses métodos de influência (para evitar o sofrimento) é o químico: a intoxicação. (...) com o auxílio desse ‘amortecedor de preocupações’, é possível, em qualquer ocasião, afastar-se da pressão da realidade e encontrar refúgio num mundo próprio, com melhores condições de sensibilidade.

Um pouco mais adiante, no mesmo texto, Freud pondera a questão e não deixa de fazer algumas advertências:

 

(...) é exatamente essa propriedade dos intoxicantes que determina o seu perigo e a sua capacidade de causar danos. São responsáveis (...) pelo desperdício de uma grande quota de energia que poderia ser empregada para o aperfeiçoamento do destino humano.

 

Psicanaliticamente falando, e quem afirmava isto era Freud, o sentimento de felicidade oriundo de um impulso instintivo (pulsão), não domado pelo ego, é incomparavelmente mais intenso do que o derivado da satisfação de uma pulsão que já foi domada. Porém, invariavelmente, paga-se um preço para gozar e, não raro, este preço é pago com a própria vida. Trechos extraídos de algumas notícias veiculadas sobre a morte de uma estudante de 20 anos em um cruzeiro universitário, em 2008, servem para ilustrar e trazer a teoria para o dia-a-dia:

 

Amostras de sangue do corpo da estudante de 20 anos, que morreu a bordo de um cruzeiro universitário, foram levadas para serem analisadas pelo Instituto Médico-Legal (IML) (...) afirmaram que houve consumo de drogas durante a viagem. (...) O delegado da Polícia Federal em Santos, no entanto, não descarta a possibilidade de que a passageira tenha morrido por ingestão conjunta de álcool e drogas A estudante morreu em consequência de asfixia por aspiração de líquido - vômito - segundo o laudo do IML.

 

Trabalhar os conceitos de falta e limite torna-se fundamental quando abordamos o tema do gozo e os mecanismos utilizados pelo homem para evitar o sofrimento e o mal-estar. O psicanalista Marcus André Vieira coloca assim a questão da interdição do gozo, em seu livro “Restos: uma introdução lacaniana ao objeto da psicanálise” (2008):

 

Mas de onde virá, nos dias de hoje, uma autoridade que seja levada a sério em seu “basta!”, em seu “é preciso dar limites”? Não é suficiente engrossar o coro dos homens de bem para impor restrições ao gozo. (...) Temos que dar ênfase mais ao gozo e a seus mecanismos intrínsecos de regulação do que às instâncias de interdição.”

 

Será que não precisaríamos aprender a perder? Extrair valor da derrota, da perda? Reconhecer a falta, a incompletude, e saber conviver com elas? Não seria o caso de darmos mais valor àquilo que nos resta? Acolher nossa imperfeição? Imperfeição esta, vale frisar, que nos faz únicos. Sempre faltará algo, há que se reconhecer isto, nem que sejam palavras. Pensando a falta, com Lacan, como aquilo que permite a constituição do sujeito, do sujeito desejante, percebemos o valor atribuído a este conceito pelo mestre francês. A metáfora do antigo jogo de tabuleiro chamado “Resta 1”, nos ajuda no reconhecimento da importância da falta: o jogo só existe porque falta uma peça; se não faltasse tal peça seria impossível o movimento; impossível jogar; estagnação. A falta seria, portanto, aquilo que permite a emersão do desejo e o próprio surgimento da linguagem. Pode-se dizer que a mãe precisa faltar, em algum momento, para que a criança possa desejar, possa demandar, ou de maneira mais rebuscada, possa se constituir como um sujeito desejante. Freud, com seu complexo de castração, fala da importância simbólica e psíquica da percepção pelas crianças da presença e, principalmente, da ausência do falo (algo falta). Ou seja, é quando um mecanismo faz aparecer alguma coisa no lugar da falta que a angústia se instalaria. Quando algo surge no lugar da castração imaginária, é isso que provocaria angústia, uma vez que a falta, falta. Consequentemente, a castração, longe de ser a principal causa da angústia, como acreditava Freud, seria de fato aquilo que salvaria o sujeito da angústia.

 

Prefiro pensar o gozo na clínica psicanalítica, não como uma espécie de “campo de batalha” entre gozo e desejo, de combate ao gozo, para que atacando-se o gozo possa cessar o sofrimento do sujeito e, finalmente, possibilitar que seu desejo advenha; mas sim, uma clínica que possa ser capaz de acolher o gozo, como defende o psicanalista Eduardo Rozenthal em seu artigo “Cuidado de si e cuidado do outro: sobre Foucault e a psicanálise”. Ou seja, pensar o setting analítico como um lugar privilegiado de criação conjunta analista-analisante daquilo que pode-se chamar de “espaço seguro para o gozo”. Trabalhar com o analisante novas possibilidades, criativas e seguras de gozar, de verter os excessos que ameaçam inundar seu aparelho psíquico, prevenindo o temível transbordamento. Uma espécie de inundação controlada. O gozo a serviço do desejo.

 

Arthur Figer

 

Confira a matéria publicada na revista Psicanálise em Outubro de 2011 - Acessar a Matéria

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