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Psicanálise e Linguagem

26/10/2016

Criado Por

 

Ao formular que o campo psicanalítico é fundado na fala e na linguagem, e que o inconsciente se constitui na e pela linguagem, o psicanalista francês Jacques Lacan sublinha o registro simbólico como aquele dominante no psiquismo e fundante do sujeito do desejo.

 

 

 

 

O que interessa à Lacan é a fala enquanto linguagem, remetida a um Outro e situada na relação íntima que guarda com o falante. O desejo se articula na linguagem e se revela, por exemplo, nos lapsos e em todos os tropeços da fala. O campo de ação da psicanálise situa-se na fala, onde o inconsciente se manifesta, através de atos falhos, esquecimentos, chistes e de relatos de sonhos, enfim, naqueles fenômenos que Lacan nomeia como "formações do inconsciente". A isto se refere o aforismo lacaniano "o inconsciente é estruturado como uma linguagem".

 

Inicialmente, a maneira de Lacan pensar a experiência analítica, desde a década de 50, foi tomá-la a partir da relação de linguagem que ela constitui. Nesta época era enfatizada a importância da cadeia de significantes, possibilitando a escuta analítica de maneira totalmente diferente do que se fazia ao se escutar o significado. Tomando este ponto de partida, Lacan mostra que a linguagem manifesta uma demanda, para além do objeto intencionado e significado. Levando em conta a realidade do inconsciente, através da enunciação nos seus tropeços, é possível a dedução de uma falta, indicando o movimento do desejo e a manifestação de uma estrutura psíquica. O desejo aparece como um elemento essencial da experiência humana, que emerge na linguagem e só por ela, revelando-se inconsciente, e só podendo ser contornado num processo interminável. O que é importante, segundo Lacan, “é ensinar o sujeito a nomear, articular, trazer este desejo à existência” (1954-55, p. 228). O entrelaçamento entre linguagem, conhecimento e realidade é claramente percebido na medida em que nossa relação com a realidade e o conhecimento está sempre mediada pela linguagem. Não há outra forma de explicar nossa relação com a realidade, senão através da linguagem.

 

O termo talking cure, inventado pela famosa paciente de Breuer, Anna O., para referir-se ao tratamento psicanalítico, expressa de forma clara a maneira como a articulação do sujeito com sua fala marcou a invenção da psicanálise. A fala e a palavra estão na base da teoria, da técnica e da ética da psicanálise, sendo a rede de significantes inseparável da concepção de inconsciente estruturado como linguagem. A concepção lacaniana posiciona o sujeito não como um simples usuário de um código (lingüístico), mas sim como efeito de um discurso. O sujeito é falado antes de falar. O campo da linguagem, portanto, é situado no campo do Outro, do grande Outro do simbólico, ou seja, a linguagem constitui-se na relação com outrem. No campo do grande Outro se é lançado na busca dos significantes que possibilitem um sentido à existência. Isto é, para além do sujeito e do outro, há a priori uma instância terceira, o grande Outro, a ordem simbólica, na qual o falante, através da fala, já está inserido, e que está presente na articulação lingüística do sujeito.

 

Em sua visão de sujeito, Lacan articula a questão da constituição do sujeito a partir do que se poderia chamar de “entrada na linguagem.” Podemos dizer, portanto, que, na visão deste autor, a linguagem seria anterior ao sujeito. Ou seja, o sujeito só poderia se constituir a partir da linguagem, da ordem simbólica, sendo diretamente afetado e constituído por ela. A entrada do infante na linguagem pode ser vista como um movimento radical que lança o sujeito definitivamente na dimensão da falta, pois a linguagem nunca conseguirá dizer tudo. Sempre faltará algo, nem que sejam palavras. Na linguagem, na fala, o sujeito mostra sua falta, sua finitude. O simbólico diz respeito a esta dimensão caracterizada pelo acesso à palavra e marcada pela interdição do incesto, condição da constituição do sujeito. Em outras palavras, o sujeito para tornar-se habitante do registro simbólico, ser ali inscrito e registrado, a partir de sua inevitável imersão na linguagem, conta como elemento possibilitador o complexo de Édipo, que funciona como uma espécie de plataforma que institui a conexão entre o infante e a linguagem.

 

De acordo com a teoria lacaniana, o sujeito seria constituído a partir de um “corte” promovido por esta entrada no universo simbólico, o que implicaria a introjeção de certas leis compartilhadas, que seriam em última instância, as leis da linguagem, ou se preferirmos, as regras gramaticais. O inconsciente estruturado como linguagem apresenta a linguagem tomada pelo sujeito como coisa já pronta e outorgada pelo "Outro", para que, com este, o sujeito possa entrar em relação e suprir suas necessidades. A linguagem seria o que permite o surgimento do inconsciente, suas operações e transformações. Fora da linguagem, pode-se especular, o inconsciente não existiria ou, pelo menos, seria impensável, irreconhecível e inapreensível. Daí a idéia de linguagem anterior ao sujeito e de sujeito como efeito de linguagem.

 

O real, enquanto registro que não pode ser simbolizado, é o fora da linguagem, não acessível a uma palavra que o abarque e defina, resistindo sempre a toda tentativa de simbolização. O objeto pequeno a nos remete exatamente a esta impossibilidade de representação, algo da ordem do inominável, fora do significante, lugar de ausência e, principalmente, causa de desejo. A linguagem também compreende essencialmente um buraco, um vazio, que a fala contorna, faz borda e tenta recobrir, porém sem jamais conseguir obturá-lo. Assim, podemos perceber algumas características semelhantes entre a linguagem e o objeto pequeno a, causa de desejo,

principalmente no que diz respeito a uma certa contingência, uma certa impossibilidade.

 

Quando o paciente de Freud diz: “Não é minha mãe”, entendemos que esta frase conjuga a lei e o desejo. Enquanto o desejo incestuoso afirma “é minha mãe”, a lei que interdita diz um “não” radical que instaura a ordem da linguagem. A descoberta lacaniana implica, portanto, na produção de um novo estatuto de caracterização e uma nova compreensão da condição humana, na medida em que não é somente o homem que fala, mas, no homem e através do homem, isso fala (ça parle). O isso, devendo ser aqui compreendido como a estrutura da linguagem. A hipótese lacaniana da anterioridade e autonomia do simbólico em relação à fala individual do sujeito, pode ser pensada a partir da linguagem e do simbólico como momentos necessários à produção e à constituição do humano, no sentido de que o simbólico funcionaria como o a priori do homem. A partir da compreensão de que o ser humano situa-se para além do que lhe é biologicamente natural, no sentido de que, para constituir-se como sujeito, deve ocupar um lugar para além do ancoradouro biológico e passar a habitar o mundo da linguagem, percebemos que esta metamorfose, esta transmutação do natural ao cultural, do biológico ao simbólico, é o que nos possibilita afirmar que a psicanálise é a teoria do desejo na sua relação ao Outro.

 

Nesse sentido, a linguagem vai fazer o papel de pacificadora e estabilizadora da perturbação do corpo causada pelo gozo. A Psicanálise se apresenta como um tratamento pela linguagem. O desejo movimenta a cadeia de significantes, distanciando corpo e gozo. O gozo faz com que o corpo fique numa relação de exclusão com a cadeia da linguagem, enquanto que o desejo, ao movimentar a demanda em relação ao Outro, possibilita uma barreira e um limite ao gozo.

 

Arthur Figer

 

Confira a Matéria abaixo:

* Revista Psicanálise - Número 10 - Agosto 2012 - Psicanálise e Linguagem 

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