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A resistência como potência

26/10/2016

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O fenômeno da resistência na teoria e clínica psicanalíticas é marcado por diferentes conceitos e interpretações, muitas vezes ambíguos e contraditórios. Ao mesmo tempo em que encobre, a resistência também revela; da mesma forma que pode obstruir e destruir um tratamento, é vista como essencial e indispensável para a viabilidade de uma análise.

 

 

 

 

Freud utilizava, inicialmente, o termo “resistência” para designar um tipo de movimento do eu contra uma possível rememoração de materiais reprimidos. A entrada destes materiais reprimidos (inconscientes) na consciência representaria uma ameaça à “estabilidade” do aparelho psíquico, não à toa que foram outrora recalcados. Uma vez ameaçado, o eu trata, então, de defender-se, fazendo uso dos mais diversos subterfúgios para evitar o retorno deste perigoso material: o temível “retorno do recalcado”. Não por acaso, o fenômeno da resistência apresenta-se na clínica psicanalítica das mais diversas formas, desde uma falta ou atraso até um elogio ao sapato do analista.

 

A partir do momento em que o tratamento psicanalítico envolve, necessariamente, algum tipo de rememoração, o termo resistência rapidamente passou a representar todos os tipos de obstáculos que surgem durante o tratamento e interrompem o seu progresso. “Tudo o que interrompe o progresso do trabalho analítico é uma resistência.”, afirmava Freud em sua obra-prima “A Interpretação dos Sonhos” (1900/1996:548). A resistência se manifestaria, portanto, em todas as formas pelas quais o analisante quebra a “regra fundamental” da psicanálise, ou seja, de dizer tudo o que lhe vem à cabeça. Alguns anos depois, em 1905, Freud dá como uma das razões de seu abandono da técnica da hipnose o fato desta não permitir “identificar a resistência com que os doentes se aferram à sua doença”; e complementa “é somente a resistência que nos possibilita compreender seu comportamento na vida”. Vemos já aí referências à positividade da resistência – não se resiste apenas a alguma coisa, mas se resiste basicamente a abrir mão de algo, se resiste porque se insiste no apego ao sintoma.

 

Alguns analistas pós-freudianos, porém, mais especificamente aqueles da chamada psicologia do ego, talvez dando mais ênfase à negatividade do que à positividade da resistência, passaram a encará-la como uma verdadeira inimiga da análise, que deveria ser atacada e eliminada, para o bom andamento do tratamento. Vencer as resistências do analisante tornou-se o objetivo número um de muitos analistas da época e, por incrível que pareça, também dos dias atuais. Esta luta contra a resistência, invariavelmente, incorre em ainda mais resistência. Quanto mais uso o analista fizer de seu “suposto” saber-poder para interpretar e remover as resistências, mais fortes estas resistências se tornarão. Desta forma, a resistência do eu contra o retorno do material recalcado, típica em todo processo analítico, passa a ser acrescida desta outra fonte de resistência: a resistência ao saber-poder do analista tipo “Dr. Sabe-tudo”. Esta resistência, legítima e positiva, diga-se de passagem, revela um fenômeno que não é exclusividade do setting analítico, mas está presente em todo tipo de sociedade e relações humanas: para todo poder há de haver alguma forma resistência; quanto mais poder, diria, mais resistência. As revoltas populares que explodiram recentemente em países do Oriente Médio e África, contra os regimes totalitários, servem para ilustrar esta idéia. Desta maneira, nos aproximamos daquilo que Lacan chamou de “resistência do analista”, ou seja, o analista como causa da resistência. Ouçamos Lacan: “Não há na análise outra resistência senão a do analista" (Escritos, p. 377). Esta controversa afirmação do mestre francês pode ser entendida, pelo menos, a partir de duas perspectivas, conforme segue: 1) a resistência do analisante somente ocasionará a obstrução do processo analítico quando esta corresponder ou evocar alguma resistência do próprio analista, ou seja, quando o analista estiver implicado na resistência do analisante e; 2) é o analista quem provoca a resistência do analisante, exercendo seu saber-poder sobre o analisante de forma intrusiva, intempestiva, violenta e cruel, pretendendo, arrogantemente, saber mais da vida do sujeito que o próprio sujeito.

 

Resistência, ainda segundo Lacan, significa simplesmente que o analisante não pode mover-se mais depressa (Seminário 2, p. 228). Ou seja, não forçando, não invadindo, não apressando e não ameaçando o analisante, possibilitaria uma redução da resistência ao seu nível “mínimo irredutível”. Resiste-se ao invasor, ao opressor, logo, se não há invasores, nem opressores, não há resistência, ou melhor, há um “mínimo irredutível de resistência”. Este “mínimo irredutível de resistência” é visto como essencial por Lacan, uma vez que seria uma expressão legítima do desejo do sujeito de manter sua condição de sujeito desejante. Por esta razão, este resíduo de resistência não deveria ser alvo de interpretação, muito menos de eliminação, por parte do analista, uma vez que não há possibilidade de superá-lo, nem removê-lo. A simples tentativa, neste sentido, poderia provocar consequencias catastróficas para a análise, muitas vezes com requintes de violência e crueldade, pois o sujeito, legitimamente, poderia se sentir invadido. Apesar da recomendação lacaniana para que o analista não busque remover toda a resistência, ele certamente pode minimizá-la, ou, pelo menos, evitar exacerbá-la.

 

Para Lacan, a resistência seria estrutural e inerente ao processo analítico. Posto de outra maneira, não há análise sem resistência e o papel do analista no manejo da resistência é fundamental e determinante para o sucesso de uma análise. Dependendo de seus atos e intervenções, e da tempestividade ou intempestividade dos mesmos, o analista pode minimizar ou maximizar a resistência. Jamais eliminá-la por completo. Após reduzir a resistência ao seu mínimo, o analista terá de se haver com este resíduo de resistência, que como vimos, para Lacan, é essencial. Essencial, talvez, pelo fato deste resíduo irredutível de resistência representar  aquilo que marca uma diferença, exatamente a diferença entre psicanálise e sugestão. A psicanálise valoriza e respeita o direito do analisante de resistir à sugestão e, portanto, valoriza esta resistência. Trabalha-se, assim, não contra a resistência, mas com a resistência, já que ela é presença constante no processo analítico. Trabalha-se com o sujeito e, claro, com sua divisão.

 

A psicanalista Ângela Coutinho (SPID) articula de maneira esclarecedora resistência e potência, em seu artigo “O que nós, psicanalistas, podemos aprender com Foucault”, conforme a seguir:

A força, mesmo sendo afetada por outra, tem um potencial que é sua capacidade de resistência.

 

"A resistência é a potência da força, inerente a si própria, é o que a mantém como força. Resistência é o que permite o confronto com a dominação. Ali onde não resiste, ela não é mais força."

 

A resistência, portanto, pode ser vista sob o aspecto de uma potência. Potência esta que teria, ao mesmo tempo, um viés “destruidor” (negativo), na medida em que pode facilmente acabar com uma análise, mas também um aspecto “criativo” (positivo), uma vez que em seu nível mínimo irredutível, seria responsável por sustentar uma análise e, consequentemente, novas possibilidades de subjetivação. Para ilustrar e concluir lembremos que: 1) a resistência do ar é o que permite ao avião voar; 2) a resistência da água o que possibilita ao navio navegar e, finalmente, 3) a resistência das cordas do violão torna possível a melodia. O segredo está na afinação.

 

Arthur Figer

 

Confira Abaixo a Matéria:

* Revista Psicanálise - A Resistência como Potência

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